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Gottschalk e o Hino Nacional

Última modificação : Segunda, 08 Maio 2017 14:51



O conceito de Hino Nacional é relativamente recente – coisa de 300 anos para cá, no máximo. O mais antigo é o inglês God Save the King (ou Queen), que curiosamente acabou sendo adotado, num momento ou noutro, também por outros países, como Suécia, Dinamarca e até Rússia. O hino inglês é bastante diferente do brasileiro no que tange o contorno melódico: é simples e lento, quase religioso. Os franceses optaram por outro estilo para seu hino: A Marselhesa, uma marcha militar, composta numa única noite por Rouget de Lisle.


O hino francês é de longe o mais citado em obras de outros compositores: Abertura 1812, de Tchaikovsky, Carnaval de Viena, de Schumann, além de peças de Wagner, Liszt, Debussy e outros. Já a maioria dos países latino-americanos prefere um terceiro estilo, inspirado na ópera italiana. São melodias rebuscadas, em geral precedidas de uma longa introdução orquestral. É o nosso caso: a introdução do hino brasileiro, aliás, com aquela profusão de trinados constitui um belo desafio para qualquer violinista. Mas há casos ainda mais bizarros: o hino de El Salvador é comparável na textura ao segundo ato da Aida de Verdi. Caso interessante é o da Malásia, que não optou nem por melodia religiosa, nem por marcha militar, nem ópera italiana. Seu hino nacional é uma melodia folclórica do país. Nosso Hino Nacional é um retrato fiel do Brasil: bonito, mas inacessível para 90% da população. É patético testemunhar nossos jogadores em copas do mundo debatendo-se contra as dezenas de apogiaturas que tornam nosso hino praticamente impossível de cantar e o transformam em mais uma poderosa ferramenta de exclusão. À parte as dificuldades, nosso hino é um dos mais bonitos que se conhece.

                                                                                                                                            
GOTTSCHALK E O HINO NACIONAL 

Louis Moreau Gottschalk, pianista e compositor norte-americano, nasceu em 1829 em Nova Orleans, cidade do Estado de Luisiania. Seu pai era judeu alemão e sua mãe pertencia à pequena nobreza francesa. Como pianista se apresentou, sempre com muito êxito, em sua terra natal e em países da Europa e das Américas. Como compositor, valorizou a música folclórica e popular dos E.U.A., das Antilhas e até mesmo da Europa, ao dar a muitas melodias desses países uma roupagem erudita em peças pianísticas. Seu nome permaneceu na história da música graças à sua fama internacional como pianista e por ser o precursor do nacionalismo nas Américas. Em setembro de 1865, Gottschalk teve que deixar os E.U.A. embarcando para uma viagem pela América do Sul, que o levou a Santiago do Chile, Buenos Aires e finalmente ao Rio de Janeiro, onde se apresentou em recitais com o sucesso de sempre. Foi no Rio, também, onde veio a falecer de doença, em 1869, aos 40 anos de idade. No Rio de Janeiro, Louis Moreau Gottschalk compôs aquela que viria a ser, senão a melhor, pelo menos uma das melhores de suas composições para piano, a famosa Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro.


Mas, por que o título “Grande Fantasia Triunfal”? O tema usado, ao contrário do que se aceita como tal, não é a melodia de nosso Hino Nacional, e sim apenas uma válida “deformação artística” da mesma. Nessa interessante “deformação”, o compositor conseguiu não só manter, como também incrementar o caráter nobre e heróico da inspiradíssima melodia de Francisco Manoel da Silva. Sabendo que o termo “fantasia” se aplica a uma composição sem muito rigor estrutural, Gottschalk teria, com essa palavra, procurado “disfarçar” a “deformação”. Quanto às duas outras palavras bombásticas do título da obra, “grande” e “triunfal”, essas ocorrem por conta de modas da época. Por último, nessa obra o compositor usou o chamado “pianismo sinfônico”, invenção de Liszt que consiste em sugerir, ao piano, os diversos timbres da orquestra. Consequentemente, uma orquestração da Grande Fantasia nada acrescenta à obra, pois serve apenas para mutilar as intenções de Gottschalk . Somente para relembrar: Hino Nacional Brasileiro, música de Francisco Manoel da Silva (1795-1865) e letra de Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927).  A música foi composta em 1822 e a letra foi introduzida somente em 1909. Foi oficializado pela lei nº 5.700 de 01/09/1971. 



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