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Paralelo entre a Fuga e o Desenvolvimento Humano

Última modificação : Sábado, 19 Janeiro 2019 14:54


 

FUGA


CONCEITUAÇÃO

Adquire sentido específico na linguagem da música no século XV-XVI. É uma forma musical de caráter imitativo, executada a 2, 3, 4 ou mais vozes ou partes. O tema principal (sujeito), curto mas característico, aparece sucessiva e alternadamente, sempre acompanhado por 1 ou mais temas secundários. O nome lembra o fato de o tema parecer “fugir” de uma voz para outra, completo ou com pequenas modificações adaptadas a cada instrumento ou voz executante.


Os principais elementos que compõe uma fuga são: o sujeito, tema ou antecedente; a resposta ou consequente, e o contra-sujeito. Outros componentes, como a coda (“cauda”, a última parte de uma peça ou melodia; um acréscimo a um modelo ou forma padrão) e as partes livres ouvidas durante a exposição, também fazem parte da fuga que, ocasionalmente, pode apresentar mais de um contra-sujeito. 



FORMAS

O esquema padrão de uma fuga divide-se em 3 partes básicas: exposição, desenvolvimento e estreito (stretto). Na exposição, que deve conter todo o material temático da obra, o tema aparece em todas as vozes, sucessivamente, como sujeito (tema no tom original) e como resposta (tema em outro tom, geralmente o da dominante). Se a fuga é a 2 vozes, obedece ao plano sujeito-resposta; se a 3 ou mais vozes, sujeito-resposta-sujeito-resposta, e assim por diante, alternando-se sujeito e resposta nas entradas consecutivas de todas as vozes. À exposição pode suceder-se uma contra-exposição, caracterizada pela entrada dos elementos principais em ordem inversa, ou seja, resposta-sujeito.

 

No desenvolvimento, o sujeito, a resposta, o contra-sujeito, as partes livres, outros desenhos melódicos e rítmicos misturam-se, combinam-se, modulam, aparecem em movimento contrário (com os intervalos invertidos) em movimento retrógrado,  completos ou incompletos, de forma a oferecer o máximo de variedade e fantasia em suas frequentes repetições. Não raro, novos motivos são utilizados no desenvolvimento, ou se valorizam e se acentuam pequenos detalhes de algum elemento já conhecido. Por outro lado, o ciclo das tonalidades vizinhas é percorrido por meio de outros episódios intercalados de passagens modulantes, que constituem o divertimento, cuja função é de permitir a entrada do sujeito naquelas tonalidades. 


stretto (estreito), parte final da fuga, de escrita cerrada, exige extrema habilidade do compositor, para apresentar sujeito e resposta em todas as vozes, ou quase todas, em entradas “estreitas”, quase simultâneas. São utilizadas modificações nos temas (por vezes usados incompletos, aumentados, diminuídos, invertidos, etc.), para tornar possível tal efeito, até que a resposta se torna o cânone natural desses temas. Após o stretto é comum aparecer no grave uma nota de valor longo e prolongado, geralmente a tônica ou a dominante: é a chamada nota pedal. A cadência conclusiva da fuga, sempre no tom original, vem após o stretto ou, quando há pedal ou coda, seguem-se a estes. As terminações das fugas são por vezes tão finamente contrapontadas que permitem ouvir fragmentos do tema até sobre as notas do acorde final. Do ponto de vista harmônico, a fuga é uma composição de caráter exclusivamente modulante. A mudança de tom funciona também como elemento “cor” da fuga, ajudando a evitar que as constantes repetições do material temático conhecido se tornem monótonas ou desinteressantes. 



PARALELO ENTRE A FUGA E O DESENVOLVIMENTO HUMANO (*)


Desde a sua conceituação, pode-se traçar um paralelo entre a fuga e o desenvolvimento do ser humano.  Nossa vida também tem um caráter imitativo quando somos crianças e é construída por várias pessoas, tais como: pais, professores, família (as “vozes” da fuga). Nós (o tema principal) aparecemos em cena, mas sempre acompanhados por um adulto (tema secundário).



FORMAS           

Nossa vida, tal qual a fuga, é dividida em 3 partes básicas: infância (exposição), adolescência (desenvolvimento) e vida adulta (stretto). Na nossa infância, temos todo o conteúdo “temático”, aparecem todas as “vozes” e nos desenvolvemos no esquema pergunta-resposta (ou bate-rebate), proporcional ao número de vozes. É nesse contexto que chegamos à adolescência e que nos combinamos, modulamos e aparecem novos desenhos melódicos e rítmicos. Alguns são em movimento contrário, e outros em movimento retrógrado, completos ou incompletos, mostrando o máximo de variedade e fantasia. Quando adultos, nos damos conta que a vida exige muita habilidade para lidarmos com todas as vozes simultâneamente.


É aí que nos modificamos  para tornar possível tal façanha, até que a resposta se torna o cânone natural desses temas. Do ponto de vista harmônico, nossa vida é uma composição de caráter exclusivamente modulante. A mudança de tom funciona também como elemento “cor”, ajudando a evitar que as constantes repetições do material temático conhecido se tornem monótonas ou desinteressantes. Nossa vida, tal qual a fuga, é uma ginástica de inteligência para nos situar dentro das circunstâncias especiais que regem o complexo processo da sobrevivência (na fuga, eu diria “sobrevivência” do executante!). 



 

Por: Elza de Moraes Fernandes Costa, musicista e pesquisadora da Música Clássica.

(*) Obs.: O paralelo entre a fuga e o desenvolvimento humano é opinião pessoal minha.  



 


Fonte do artigo:

Enciclopédia Mirador Internacional  (Encyclopaedia Britannica do Brasil)