ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

Como ouvir Música Clássica

Última modificação : Terça, 26 Abril 2016 15:13



Por Eduardo Seincman

 


Ouvir música clássica?

 

A criatividade não é uma dádiva circunscrita aos criadores. A divisão entre os que criam uma obra musical e aqueles que a apreciam é enganosa. Para ouvir música é necessária a mesma criatividade requerida para escrevê-la. Porque, afinal de contas, é preciso criar ouvindo e ouvir criando. Quando somos público, assumimos a responsabilidade de manter o interesse pela obra que estamos apreciando.

 

Não existe obra de arte que não dependa dos ouvintes. A obra não é um ser vivo autônomo. É uma ferramenta por meio da qual nos comunicamos, estabelecemos a interação social e através da qual apresentamos, uns aos outros, os questionamentos humanos da vida em sociedade. A despeito de suas individualidades, os criadores agem como se fossem “antenas” captando os sinais à sua volta, e suas obras, afirmando e ao mesmo tempo questionando a linguagem, são espelhos de reflexão de nossas próprias imagens.

 

Por razões de ordem histórica, estética e social, que não cabe levantar aqui, a música clássica foi e ainda é vista como um nicho à parte do mundo “ordinário”. Quando alguém diz que “desconhece” a música clássica, está provavelmente desconsiderando o fato de que ela está presente não apenas nas salas de concerto, mas em filmes, propagandas, desenhos animados, programas de televisão, novelas, rádio, internet etc.

 

A música, como as demais linguagens, é uma prática a que todos nós temos acesso e somos submetidos desde a mais tenra infância. A palavra  “leigo”  é, pois, enganosa: o mero conhecimento técnico ou teórico da música não garante a qualidade de sua apreciação. Por acaso, a gramática é condição de dialogarmos uns com os outros? Mas, o diálogo com uma música não é apenas o de um interlocutor com seu objeto, pois, da mesma forma que nossas obras, somos agentes e produtos de uma cultura que nos antecede: nossos diálogos, nossas experiências estéticas, são parte de uma vivência  histórica e cultural entabulada há séculos pela humanidade. Cada nova obra é, portanto, reafirmação e questionamento, um conflito entre o que permanece segundo determinadas regras e o que se infringe a fim de nos sensibilizar para novas formas de percebermos e encadearmos os fatos do mundo. Tudo o que pertence à cultura está em constante interação: ouvir música não é restringir-se, pois, ao universo musical. A obra musical é uma encruzilhada, um nódulo de uma extensa rede de conhecimento propiciada pela cultura envolvendo todas as demais formas de expressão humana (literatura, cinema, artes plásticas, drama, filosofia, política, história etc.).

 

Um breve exemplo poderá elucidar esta questão. Sabemos que o escritor Thomas Mann, auxiliado pelo filósofo Adorno (que fora aluno do compositor Alban Berg), escreveu o romance Doutor Fausto. O livro é uma nova versão do mito faustiano relido sob o ponto de vista da crise cultural, política e social que se abateu sobre a humanidade durante a época do nazismo. O romance tem como perspectiva a trajetória do compositor Adrian Leverkühn e sua atitude pessoal e estética perante o suposto “esgotamento” da linguagem musical em sua época. Além das referências musicais explícitas – Leverkühn é, no livro, o criador da música dodecafônica, “cria”, na verdade, do compositor Arnold Schoenberg – há, na obra, referências indiretas à música de toda a geração de compositores compreendendo Strauss, Webern, Stravinski, Berg, Britten, Varèse e Chostakóvitch. Mas, a influência deste livro repercutiu para além de sua época tendo influência direta ou indireta nas obras de inúmeros compositores do pós-guerra como Boulez, Ligeti, Schnittke, Zimmerman, Pousseur e Messiaen (que para Alex Ross, é um anti-Leverkühn). Nesse caso, a música serviu de suporte à literatura e essa propiciou a criação de uma nova música. Se não ficarmos apenas no plano da leitura e travarmos contato com o repertório musical aludido no romance, poderemos lê-lo com outros “ouvidos” e ouvir este mesmo repertório com outros “olhos”, ou seja, sob uma nova ótica.

 

Este exemplo nos mostra que a música não pode ser tratada de forma unilateral, tal como já nos alertara este fragmento de Doutor Fausto:

vi e notei nitidamente que a Kretzschmar não bastava ser o professor de piano que treinasse o aluno numa técnica especial, mas que para ele a própria Música, o objeto de tal ensino, representava uma especialidade suscetível de atrofiar o espírito humano se fosse tratada unilateralmente, sem nexo com outros campos da forma, do pensamento e da cultura.

         

Nesse caso, o professor Kretzschmar não é detentor do “conhecimento”, mas seu provedor e promotor. Ao mostrar o nexo da música para com os “outros campos da forma, do pensamento e da cultura”, desperta em seus alunos a vontade de conhecer, de estabelecer vínculos, de interpretar, e mostra que, para além de suas qualidades físico-acústicas, os textos musicais apontam para camadas profundas de nossa existência. O professor de fato é aquele que, longe de apresentar uma visão de mundo como sendo “a verdade”, apresenta a verdade de uma determinada visão de mundo.

 

Quando a escuta musical engendra nexos, ela passa a significar, a ser significativa. O que não quer dizer, em absoluto, que o significado de uma música seja definível a partir deste ou daquele conceito. Esta questão foi abordada por Claude Lévi-Strauss que constatou que o sentido de um mito tomado de forma isolada não lhe aparecia: quando confrontado a outro mito, isto iluminou o sentido de ambos. Este fato fez com que ele se utilizasse da noção de correspondência:

 

Quando, de uma maneira geral, nos perguntamos o que quer dizer o verbo “significar”, percebemos que se trata sempre de encontrar em outro domínio um equivalente formal do sentido que procuramos. O dicionário é o exemplo deste  círculo lógico. O significado de uma palavra é dado por meio de palavras cuja própria definição reclama outras palavras. (...) O significado nada mais é do que o estabelecimento da correspondência. Isto é verdadeiro para as palavras e para os conceitos também.

 

Podemos extrapolar esta ótica para a música: o sentido da música está na sua relação com equivalentes formais de outros domínios. Mas, não nos equivoquemos: esta relação entre os domínios será sempre mediada pelo homem (ator, intérprete, apreciador etc.). Somos nós, humanos, os responsáveis por estabelecer a triangulação de uma relação aparentemente dual ou binária entre os domínios. Pelo fato de nossa relação com os objetos de apreciação parecer “natural”, chegamos a acreditar que tais objetos têm vida própria. Mas, tal relação não possui nada de natural, já que ter uma experiência estética não é ficar passivo, ser mero receptor de “mensagens”: criar sentido, encontrar nexos, requer atividade, atenção, concentração, criatividade, vontade – é uma prática e uma técnica e, como tal, pode ser aprimorada e aprofundada.

 

A obra é, portanto, o estopim para a nossa humanização. E quando este processo se inicia, nós e nossos objetos ficamos nivelados: não há mais “obras-primas”, mas obras que, aliviadas de suas “auras”, passam a cumprir o papel que no início lhes esteve reservado: matérias-brutas a serem lapidadas por nossas interpretações, sem as quais careceriam de sentido social. As obras são um ponto de partida e não de chegada. E como tais, querem se comunicar com todos nós, sem exceção. 

 

Somos feitos de razão e sensibilidade: nosso raciocínio jamais cessa de atuar enquanto assistimos a um filme, lemos um livro, ouvimos uma música, apreciamos uma pintura ou uma paisagem. Há um constante embate entre o que nos chega pelos sentidos e o sentido que damos ao que nos chega. Animados ou inanimados, o fato é que dialogamos e discutimos constantemente com nossos objetos de percepção: queremos estar próximos deles para observá-los “de dentro”, mas deles nos afastamos a fim de rever nossos pontos de vista e refletir sobre as impressões que nos causaram. Trocamos constantemente de posição: somos seus observadores e seus objetos de observação. Sem essa dupla articulação, não seriamos impressionados, não refletiríamos, não nos comoveríamos.

 

O reino da música e da arte é o da polissemia: não há obras definitivas, não há interpretações últimas. Assistir, por exemplo, a um “clássico” do cinema como 2001: Odisséia no Espaço, de Kubrick, é ter a experiência de ouvir Richard Strauss, Johann Strauss Jr., György Ligeti e Aram Khatchaturian de maneiras até então inusitadas, que transformam e passam a interferir no próprio modo de ouvir suas músicas. O cinema contribuindo para eternizar, valorizar e ressignificar... a “música clássica”!

 

Ouvir música clássica? Os clássicos são a garantia de permanência das grandes questões a despeito dos modismos passageiros.

 


Eduardo Seicman é compositor e Prof. Dr. da ECA-USP. Formou-se em Ciências Sociais pela FFLCH-USP. Em 1981, iniciou sua carreira como docente do Depto. de Música da escola de Comunicações e Artes da universidade de São Paulo (ECA-USP). Defendeu teses em mestrado, doutorado e livre-docência nas áreas de composição, análise e estética musical.


Sua produção artística compreende mais de uma centena de obras que abrangem tanto música solista quanto obras de porte sinfônico e operístico.

Oferece também cursos para grupos interessados, de no mínimo 5 pessoas, em que a música clássica é abordada e analisada a partir de uma experiência prática de audição e confrontada com as criações de outras áreas do conhecimento. Essa contextualização aprofunda a escuta musical dos alunos, amplia seu repertório e desenvolve sua capacidade de estabelecer vínculos e nexos entre a música e outras formas de expressão. O curso não requer quaisquer conhecimentos técnicos.

O CD Histórias Fantásticas, lançado em setembro de 2009 foi o coroamento de um extenso projeto englobando música e literatura que se iniciou, em 2007, com a publicação do livro-CD Sonata do Absoluto (Imprensa Oficial/EDUSP). Acesse para conhecer: www.historiasfantasticas.mus.br

 

E-mail: seincman@uol.com.br

 

Artigo escrito para o Portal Concertino