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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Villa-Lobos para além do nacionalismo

Última modificação : Segunda, 12 Maio 2014 17:50


MARIA ALICE DA CRUZ


Villa-Lobos, cujo cinquentenário de morte está sendo lembrado: da incompreensão ao reconhecimento (Foto: W. Eugene Smith/Life) O Trenzinho Caipira” é a obra de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) que mais atrai instrumentistas e coralistas mirins e juvenis 50 anos após sua morte.

 

A composição erudita também já ganhou versão popular por intérpretes de música brasileira. Parte das Bachianas Brasileiras n. 2, o “Trenzinho” está para estudantes mirins assim como as Bachianas n. 5 estão para as cantoras líricas brasileiras. São duas peças importantes para introduzir a obra de Villa-Lobos na vida de alunos e de bons ouvintes de música, na opinião de Paulo de Tarso Salles, professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, doutor pela Unicamp e autor do livro Villa-Lobos: processos composicionais. Mas a musicografia deixada por Villa-Lobos, lembra o autor, é mais extensa e mais rica e está sendo redescoberta depois de muitos anos fadada, no Brasil, a discursos depreciativos sem fundamentos teóricos e analíticos. 


Fundamentado em análise minuciosa à luz das partituras do mestre, Salles responde a esses discursos no livro, publicado pela Editora da Unicamp, mostrando que Villa-Lobos era tão genial, meticuloso e competente quanto qualquer compositor moderno de sua época. “Eu abordo mais a questão do Villa-Lobos como um compositor significativo para a música do século 20. Enfim, ele é um compositor significativo. A música dele dialogava com os principais compositores da época, Stravinsky, Webern, Bartók, Varèse, entre outros”.

 

Há muita discussão, polêmica e especulação sobre a qualidade musical, mas somente depois de 50 anos de sua morte um musicista decide analisar a obra de Villa-Lobos à luz da teoria musical mais compatível. A leitura do Villa-Lobos é abordada em uma análise comparativa de suas partituras com músicos da época como Stravinsky, Bartók, Schoenberg e Webern. Salles diz que a primeira coisa que salta os olhos ao analisar a partitura de Villa-Lobos como um musicólogo é que o compositor carioca é muito diferente do que falam, como, por exemplo, a afirmação de que ele é apenas intuitivo. Salles encontrou foi um compositor que planejava. “Villa-Lobos não tem um estilo único. É preciso grande domínio técnico para realizar esses diferentes estilos da maneira como ele fez. O que mostro no livro são processos composicionais que ele aplicou ao longo de toda a vida, em vários estilos, em vários meios de expressão”, enfatiza o autor.

 

Nas diversas obras analisadas, Salles percebeu técnicas sofisticadas, simetrias, construção de figuras musicais que permitem o espelhamento do som. A obra “Uirapuru”, segundo o professor, é uma mostra do rigor composicional de Villa-Lobos. As partituras mostram que ele tinha alto domínio das formas musicais. 


Outra pontuação feita por Salles está na análise do “Choros nº 10”, fusão de cantos tribais, blocos carnavalescos e outras sonoridades. “Lévi-Strauss buscou as estruturas matemáticas nos mitos dos índios brasileiros. De certa maneira, essa foi uma das premissas que empreguei para entender a música do Villa”, revela.

 

Modernismo 
Villa-Lobos foi o primeiro compositor brasileiro a entrar de corpo e alma no modernismo, e isso, na opinião de Salles, foi o principal motivo de rejeição a sua obra, por parte de seus críticos. Ao mergulhar na nova proposta, começou a criar formas musicais de acordo com o próprio material musical: cantos de pássaros, canções indígenas, melodias folclóricas, etc. “Ele compunha usando o material como determinante da forma”, explica Salles. Em sua primeira viagem a Paris, ele conheceu a música de Stravinsky, com uma proposta moderna, e acabou sendo influenciado. “Ele foi muito criticado por isso, mas as mesmas críticas foram feitas a Stravinsky e todos os contemporâneos na primeira metade do século 20”.

 

De acordo com Salles, Villa-Lobos não teve receio em dialogar com os modernistas. Ao que chamam de “imitação”, Salles chama de assimilação. Em algumas obras, segundo o professor, é possível ver a inquietação dele com coisas que ouvia, assimilava e devolvia à sua maneira, forjada no Brasil. Essas inquietações são vistas em obras como Choros nºs 3, 4, 10. “Se ele não tivesse sido genial, teria voltado frustrado de lá, e talvez não estivéssemos falando dele agora. Isso demonstra sua inteligência musical para assimilar com tanta velocidade e habilidade a complexidade stravinskiana”, acrescenta.

 

Havia certo preconceito para com Villa-Lobos por ele ter sido autodidata a maior parte do tempo e não ter estudado fora do Brasil. Aprendeu os rudimentos com o pai e uma tia que tocava piano e não formalizou seus estudos em um conservatório musical. Mas ele conviveu com grandes músicos da época no Brasil, entre eles Nepomuceno, Frederico Nascimento, Francisco Braga, Agnello França, mas como esse currículo não foi oficializado, não recebeu nenhum diploma de formação musical. “O autodidatismo de Villa-Lobos sempre foi malvisto, como se a aprendizagem informal fosse algo fora do comum”, questiona Salles.

 

O professor Paulo de Tarso Salles: “Villa-Lobos compunha usando o material como determinante da forma” (Foto: Antoninho Perri) O professor esclarece que Villa-Lobos pode ser considerado até mesmo “conservador” em suas primeiras obras, nas quais buscou formas mais clássicas. “Aliás, se ele não conseguisse dominar sinfonias e sonatas, ele não conseguiria nem mostrar suas primeiras obras, pois as orquestras eram administradas por músicos muito exigentes quanto ao domínio das formas clássicas. As sonatas para violoncelo e piano, as sinfonias nºs 1 a 3 e os quartetos de cordas nºs 1 a 4 jamais seriam estreados por volta de 1915, se não fossem reconhecidos por seus pares”, enfatiza.

 

Certas afirmações feitas por Villa-Lobos, bem como algumas criações em invenções eram julgadas com frases como: “Ah, ouviu Stravinsky e está copiando”. Esta era uma maneira redutora de enxergar seu talento, sendo que de 1920 a 1950 muitos compositores imitavam Stravinsky em maior ou menor grau, na opinião do autor. “Ele foi uma influência, um compositor que marcou época. Foi compositor que mexeu com a cabeça de jovens compositores da primeira metade do século 20”, enfatiza. Ao partir para a modernização mais radical dos “Choros”, veio à baila a afirmação de que não tinha técnica suficiente. “Mas olhando as partituras, pode-se constatar que não se tratam de ‘chutes’. Imitação? Observação consciente, ele analisava elementos de Stravinsky e incorporava em sua música. A obra de Villa-Lobos revela profundo sentido analítico”, esclarece.

 

A ausência de um pensamento teórico-musical “moderno” no país pode ser o motivo pelo qual Villa-Lobos fosse incompreendido por seus compatriotas, de acordo com Salles. O que acontece é que enquanto na Europa havia uma mediação teórica que possibilitou uma leitura crítica dessa nova musicalidade, no Brasil essa discussão era ainda incipiente, mais voltada para a questão da identidade nacional. “Mas o Brasil não cultiva a teoria como um princípio saudável”.

 

Mesmo nos cursos de graduação em música, apesar de algumas obras de Villa-Lobos serem muito executadas, segundo Salles, os alunos não são estimulados a analisar suas partituras por falta de referências bibliográficas. Salles informa que existem alguns textos escritos por Lorenzo Fernandes, em 1946; um pequeno livro de Souza Lima sobre a obra pianística do maestro, publicado em 1970, e até uma obra de Adhemar Nóbrega sobre seus “Choros”, mas nenhuma delas se propõe a realizar uma análise detalhada das partituras.

 

Invariavelmente, se observa a desconfiança, por parte dos próprios músicos, de que o melhor de Villa-Lobos não está em sua música, mas nas anedotas, no exotismo, no folclore, o que torna problemática sua apreciação como um compositor “de verdade”. Curiosamente, são os músicos populares que se adiantaram nessa apreciação que transparece em certas canções de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque, sem falar nos trabalhos de Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. As gerações nacionalistas de Camargo Guarnieri e Mignone, e os modernistas Willy Correia e Gilberto Mendes relutaram em reconhecer a obra villalobiana, mas Gilberto Mendes foi talvez, posteriormente, um dos primeiros nomes da vanguarda a valorizar os procedimentos composicionais de Villa. Willy só se retratou em entrevista concedida ao O Estado de S. Paulo em 2008.

 

A música de Villa-Lobos é bastante executada em alguns países da Europa. A Orquestra Sinfônica da Rádio de Stuttgart gravou a integral de suas 12 sinfonias, regidas por Carl St. Clair. Salles conta que em festivais internacionais de violão, é possível ver instrumentistas de várias nacionalidades se apresentando com obras de Villa-Lobos. “Hoje, a música dele é largamente executada, tanto no Brasil quanto internacionalmente”, esclarece. No final de novembro, o professor, ao lado do maestro Gil Jardim, foi convidado pelos professores Giorgio Monari, da Universidade Sapienza e Rafaelle Pozzi, da Universidade Roma Tre, para participar de um Congresso Villa-Lobos realizado em Roma, onde teve a satisfação de ver a obra villalobiana sendo executada por bons músicos italianos. E houve ainda um importante debate sobre questões interpretativas e analíticas: “Max Noubel, professor de Análise Musical da Universidade de Dijon e do Conservatório de Paris, mostrou conhecer profundamente a obra do maestro”, declarou.

 

Rejeição 
O próprio Salles foi vítima da rejeição à obra de Villa-Lobos. Ao tentar ingressar no curso de música de uma universidade pública paulista, foi recusado por tocar violão e, principalmente, Villa-Lobos. “Foi um período de rejeição a tudo que parecia ser nacionalista”, explica. Salles acrescenta que pelo oportunismo, pela figura meio mítica que o próprio maestro criou, a qualidade composicional deixou de ser avaliada.

 

A aliança com Getúlio Vargas, o aproveitamento de aspectos exóticos e políticos, acusações de aproveitamento de temas alheios, como os de Stravinsky e dos chorões são críticas habitualmente feitas a Villa-Lobos, segundo Salles.

 

Para o professor da USP, houve a necessidade de forjar uma identidade nacional no Brasil, no início do século XX. Em 1928, foi criada a primeira escola de samba no país, no âmbito dessa discussão do que determinaria o caráter essencialmente nacional. “A construção da identidade do povo brasileiro aconteceu nesta época. Acho que Villa-Lobos viveu isso e chamou para si essa missão, talvez pela necessidade de ele próprio se inserir, se sustentar, estabelecer conexões. Acredito que não havia na época outra maneira de estabelecer diálogo se não fosse por intermédio dos meios que ele adotou”, sugere Salles.

 

Prova de fogo
Prova de habilidade foi dada em Nova York, quando um jornalista desafiou Villa-Lobos a compor uma música, em poucos minutos, a partir de uma fotografia de um arranha-céu. Em pouco tempo, nasceu a “New York Skyline Melody”.

 

A composição a partir de imagens também foi um marco na carreira do artista. O compositor francês Olivier Messiaen afirma no “Tratado de Ritmo e Ornitologia”, que aprendeu com Villa-Lobos a construção desses ritmos “minerais”, como ele chama a composição de Villa-Lobos, inspirada em montanhas. A partir de então, Messiaen compôs uma série de obras baseadas nas montanhas dos Alpes, onde costumava passar as férias.

 

“No Brasil, este método, não é considerado algo importante”, explica Salles. Mas ele acrescenta que Villa se revela meticuloso principalmente nessas obras, em que num papel milimetrado, ele coloca no eixo vertical, a altura das notas, e no eixo horizontal, o ritmo. “Com esse método Villa-Lobos compôs a Sinfonia nº 6, baseada nas montanhas do Rio de Janeiro”, onde, em 1887, nascia o tão sonoro gênio da música erudita brasileira.

 

Artigo publicado no Jornal da UNICAMP, edição 451, dezembro

Gentilmente cedido para publicação no Concertino

Leia a íntegra do jornal:

http://www.unicamp.br/ju