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Os mais famosos compositores da linha do tempo

BEETHOVEN, LUDWIG VAN (1770-1827)

Última modificação : Domingo, 24 Novembro 2013 11:37


ALEMÃO – ERA CLÁSSICA – 398 OBRAS 

 

Ícone supremo da música ocidental, Beethoven consolidou o conceito popular do artista que, isolado da sociedade, supera a tragédia pessoal para realizar seu objetivo e tornar-se um herói. Designando-se como "Tondichter", ou "poeta do som", sua música espelhava sua crença no prevalecer sobre a forma tradicional e, assim, pavimentar o caminho para o romantismo musical. A música invariavelmente intensa de Beethoven toca em todos os pontos da escala emocional, indo da melancolia mais soturna à celebração mais exultante.

 

Vida. Compositor alemão, o maior e o mais influente do séc. XIX, Ludwig van Beethoven nasceu em Bonn, em 17 de dezembro de 1770, descendente de família de remota origem flamenga (daí a partícula van, que não tem, aliás, significação nobiliárquica). Filho de um músico inculto e rude, que pretendeu “amestrá-lo” para menino prodígio, Beethoven teve infância infeliz, melhorando de posição social e formação musical pela ajuda de mecenas, que em 1792 lhe possibilitaram a mudança definitiva para Viena. Na capital da Áustria, obteve grandes sucessos como pianista e compositor, generosamente apoiado por membros da aristocracia austríaca, que em 1809 lhe concederam uma pensão vitalícia.

 

Em 1801 apareceram os primeiros sinais de surdez. Desesperado, Beethoven redigiu em Heiligenstadt, então subúrbio de Viena, seu testamento, decidido a suicidar-se. A crise foi, porém, superada e, sendo parcial a sua surdez, o compositor ainda pôde continuar sua carreira pública, que chegou ao ponto culminante em 1814, por ocasião do Congresso de Viena. A partir dessa data, a surdez começou a piorar, isolando o mestre quase totalmente do mundo. Beethoven morreu em Viena, a 26 de março de 1827.

 

Notoriedade. Beethoven impressionou os contemporâneos, além de sua arte, pelas manifestações rudes de sua independência pessoal. Em torno de sua forte personalidade formaram-se lendas, destinadas a salientar os sofrimentos e a grandeza do homem titânico, chegando a falsear a perspectiva biográfica. A famosa carta (sem data e sem endereço) à ”Amada Imortal” não tem maior importância para a interpretação da sua obra, porque na arte de Beethoven não é sensível o elemento erótico. Errada também é a opinião de ter o mestre sofrido pela incompreensão dos contemporâneos: teve, em vida, sucesso, reconhecimento e foi admirado como nenhum outro compositor.

 

Também teve notável êxito material e chegou a ditar preços aos seus editores. Mas, sobretudo, foram mal compreendidos os efeitos da doença. Até 1814, a surdez não foi total, permitindo a elaboração de numerosas obras-primas musicais; depois dessa data, foi a própria surdez que abriu ao compositor as portas de uma nova arte, toda abstrata. A grandeza de Beethoven não foi, prejudicada pela surdez, e sua vida não se resume numa luta heróica contra a doença.

 

Obras. Diferente de muitos outros compositores, Beethoven não foi um menino prodígio. Teve evolução lenta. À sua primeira obra escrita e publicada em Viena deu o nome de Trios Op. 1, fazendo entender, com razão, que as obras da mocidade em Bonn têm apenas interesse biográfico e histórico. Também é necessário descontar algumas obras escritas por encomenda e elaboradas sem inspiração, como a Schlachtensymphonie (Sinfonia de batalha), que foi composta em 1813 e apresentada em Viena em 1816 com sucesso retumbante, mas efêmero.

 

Resta a grandiosa evolução da arte de Beethoven, dos Trios Op. 1 até o último Quarteto Op. 135 (1826), evolução que não tem igual na história da música. O musicólogo russo Wilhelm Von Lenz, considerando 1802 e 1814 como datas decisivas na vida do mestre, formulou a tese de três fases da criação de Beethoven: mocidade, maturidade, últimas obras. Embora cronologicamente inexata (algumas obras não se enquadram bem no esquema) a tese de Lenz é até hoje geralmente aceita.

 


A primeira fase, de 1792 até 1802, caracteriza-se pelo frescor juvenil, pelo brilho virtuosístico, pelo estilo ‘galante’ do séc.XVIII, embora interrompida por tempestades psicológicas bem pré-românticas e acessos de melancolia. Galante, naquele sentido, é o famoso Septeto Op. 20 (1799-1800); despreocupadamente alegre é a sua Sonata para violino e piano em Fá maior, op. 24 (1801), chamada Primavera; bem mozartiano ainda é o Concerto para piano e orquestra nº 3 em dó menor (1800).

 

A melancolia manifesta-se na Sonata para piano nº 3 em Ré maior, op. 10 (1796-1798), nos seis Quartetos op. 18 (1798-1800) e na Sonata para violino e piano nº 2 em dó menor, op. 30 (1802), mas sobretudo na célebre Sonata para piano nº 2 em dó sustenido menor, op. 27, à qual a posteridade tem dado o apelido Mondscheinsonate (1801; Sonata ao luar). Obra capital do pré-romantismo beethoveniano é a Sonata para piano em dó menor, op. 13, à qual o próprio mestre deu o nome de Pathétique (1798; Patética). A evolução da arte do mestre evidencia-se na diferença sensível entre a Sinfonia nº 1 (1799) e a Sinfonia nº 2 (1802).

 

Duas obras das mais conhecidas de Beethoven não se enquadram bem no esquema de Lenz. Em 1803, já em plena segunda fase, a Sonata para violino e piano em Lá maior, op. 47, a famosa Sonata de Kreutzer, é o exemplo mais brilhante da primeira fase. Por outro lado, já em 1802, a Sonata para piano nº 2 em ré menor, op. 31 manifesta toda a tragicidade do gênio beethoveniano.

 


A segunda fase, a da plena maturidade, abre em 1803 com a colossal Sinfonia nº 3 em Mi bemol maior, a Eroica. Do mesmo estilo trágico são, em 1804, a sombria Sonata para piano em fá menor, op. 57, chamada Appassionata, e o segundo ato da única ópera de Beethoven, Leonore (mais tarde rebatizada Fidelio). Mas ao mesmo tempo, em 1804, escreveu o mestre a triunfal Sonata para piano em Dó maior, op. 53, chamada Aurora (ou Sonata de Waldstein), e depois de duas aberturas menos bem logradas para a ópera, Leonore nº 3 (1806), que conquistou  o público, talvez a mais gloriosa de todas as aberturas. Do ano de 1806 também são o intensamente lírico Concerto para piano e orquestra nº 4 em Sol maior, op. 58, o majestoso Concerto para violino e orquestra em Ré maior, op. 61, e os três Quartetos em Fá maior, mi menor e Dó maior, op. 59, dedicados ao conde Rasumovsky, os quartetos mais brilhantes que se conhece.

 

Depois, as obras-primas seguem-se sem interrupção: a trágica Sinfonia nº 5 em dó menor (1805-1807), a mais famosa de todas, e a não menos trágica abertura Coriolano (1807), a idílica Sinfonia nº 6 em Fá maior, chamada Pastoral (1807-1808), a sombria Sonata para violoncelo e piano em Lá maior, op.69 (1808) e o Trio para piano e cordas nº 1 em Ré maior, op. 70 (1808), de profunda melancolia; em 1809, a Sonata para piano em Mi bemol maior, op. 81, chamada Les Adieux (O Adeus); em 1810, a música de cena (incluindo grandiosa abertura) para a peça Egmont, de Goethe; em 1812, a Sinfonia nº 7 em Lá maior, a mais intensamente poética de todas, a humorística Sinfonia nº 8 em Fá maior (1812) e o justamente famoso Trio para piano e cordas em Si bemol maior, op. 97, denominando Arquiduque; enfim, em 1812, a última Sonata para violino e piano em Sol maior, op. 96, despedida poética da segunda fase.

 


Depois das festas de 1814, Beethoven, agora completamente surdo, retira-se para a solidão, elaborando uma música totalmente diferente, abstrata, interiorizada. O pórtico da terceira fase é a gigantesca Sonata para piano em Si bemol maior, op. 106, denominada Hammerklaviersonate (1818; Sonata para piano). Seguem-se, 1820-1822, as três últimas Sonatas para piano, op. 109, 110 e 111, em Mi maior, Lá bemol maior e dó menor; a última, op. 111, seria o sacrossanto testamento pianístico de Beethoven, se não tivesse escrito, em 1823, as 33 Variações sobre uma valsa de Diabelli, op. 120: sobre um tema banal, a maior obra de variações da literatura musical.

 

Do mesmo ano de 1823 são a Sinfonia nº 9 com o coral do último movimento, que assustou os contemporâneos e é hoje a obra mais popular do mestre, e a gloriosa Missa solemnis, obra de religiosidade livre de um grande individualista. Em 1824 inicia Beethoven o ciclo dos últimos quartetos: em Mi bemol maior, op. 127; em lá menor, op.132 (1825); em Si bemol maior, op. 130 (1825), do qual foi separada a fuga final, op. 133; enfim, em 1826, o Quarteto em dó sustenido menor, op. 131, mais uma dessas obras gigantescas para o pequeno elenco de quatro instrumentos de cordas, e o comovente último Quarteto em Fá maior, op. 135 (1826). São obras de inigualada profundeza artística e grandes documentos humanos.

 

As obras de Beethoven são intensamente românticas pelo extremo subjetivismo, no qual têm lugar a tragicidade patética e o júbilo triunfal, o idílio e o humorismo burlesco, o idealismo eloqüente e a música profunda. Mas a forma dessas manifestações é a do classicismo vienense, de Haydn e Mozart; são cuidadosamente elaboradas e severamente disciplinadas. Essa obra romântica é, paradoxalmente, a mais clássica que existe.

 

Beethoven viu-se admirado até a idolatria pelos seus contemporâneos. Sua influência sobre toda a música do século XIX foi avassaladora. Também as obras difíceis, as últimas sonatas e os últimos quartetos foram, enfim, compreendidos, e a intensa popularidade de Beethoven chegou a estender-se à Sinfonia nº 9 – “Coral”. Mas no fim do século começaram a surgir as primeiras vozes cépticas.


Achou-se que Beethoven tinha escrito sinfonias, sonatas e quartetos os mais perfeitos, de modo que sua arte significava um fim, embora glorioso. Debussy ousou manifestar aversão à eloqüência do mestre. Na época moderna já não existem compositores beethovenianos. Sua influência parece terminada. Stravinsky encontrou palavras duras contra o subjetivismo e o emocionalismo do mestre, o que não o impediu de declarar a fuga para quarteto de cordas, op. 133 (1825), como a maior manifestação da música ocidental.


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Fonte: Mirador Enciclopédia Internacional