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Os mais famosos compositores da linha do tempo

HOFFMANN, E.T.A. (1776 - 1822)

Última modificação : Terça, 24 Novembro 2015 16:10



ALEMÃO - ERA CLÁSSICA

 

Vida. Escritor alemão, ERNEST THEODOR WILHELM HOFFMANN, que por amor a Mozart passou a assinar Ernest Theodor Amadeus ou simplesmente E.T.A. Hoffmann, nasceu em Königsberg a 24 de janeiro de 1776 e morreu em Berlim a 25 de junho de 1822. Cursou direito na universidade de Königsberg, completando os estudos em Berlim. Embora precocemente atraído pela literatura, pintura e música, ganha a vida na carreira jurídica. Exerce postos oficiais na parte então prussiana da Polônia e só em 1807, despedido dos cargos, está de volta a Berlim, em dificuldades, compondo música e escrevendo contos, ensaios, crítica musical.

 

Em fins de 1809, vai para Bamberg, como organizador e regente de orquestra do teatro de ópera. As dificuldades que encontra, especialmente de ordem financeira, levam-no a retomar o caminho dos cargos públicos, em Berlim, a partir de 1814. É o período mais fértil de sua criação literária. Dividindo as noites entre sua obra e a boemia, durante o dia é funcionário exemplar, juiz dos mais respeitados da capital. Os últimos anos foram difíceis, marcados pela doença a que impôs resistência até o fim.

 

Caracterização. Em E.T.A. Hoffmann realiza-se a síntese, existencial e estética, da extrema evasão romântica para o gótico, para o fantástico, e da observação minuciosa, realista. Efeito admirável e contundente dessa suma organicamente vivida, e praticada através da obra de arte, é a verossimilhança espantosa que a imaginação de Hoffmann adquire, encontrando o seu sobrenatural no mais prosaico dia-a-dia dos pequenos burgueses prussianos.

 

Talento multifário, de poeta, pintor, compositor musical, crítico de música e de teatro, caricaturista ferino, entre uma consciência mágica rebelde e uma consciência crítica em formação. Hoffmann atinge um realismo fantástico que será o elo fundamental entre o romantismo do seu tempo e as sucessivas gerações em que sua inconfundível presença se fará sentir. Embora deva a maior parte de sua celebridade à interpretação epidérmica dos elementos fantasmagóricos - ou de terror - apresentados em suas histórias, tudo leva crer que, longe de os encarar como uma dimensão do real, explorou-os conscientemente como expressão mais apropriada de seus próprios conflitos interiores.

 

Obras. E.T.A. Hoffmann toma frequentemente a realidade humana singela e trivial como ponto de partida dos grandes desdobramentos de sua imaginação. Assim acontece especialmente em Phantasiestücke in Callots Manier (1814; Fantasias à maneira de Callot), em que a digressão musical envolve o mundo dos artistas, os caprichos do cotidiano burguês, e acaba entreabrindo-se para o domínio do sobrenatural e do macabro. Numa das novelas do livro "Der Magnetiseur" ("O Magnetizador"), o escritor confere ao desenvolvimento do fantástico uma familiaridade de efeito ironicamente crítica e cruel. Em outra, "Der Goldene Topf" ("O Pote de ouro"), em que Baudelaire veria "o mais completo tratado da estética", projeta a sua idealização da existência artística, numa suprema harmonia entre o real e o imaginário.

 

Exemplo característico de sua arte gótica é o romance Die Elixiere desTeufels (1815; As Drogas do diabo); a figura central, um monge possuído pelo demônio, vai-se transformando, degradando-se até um duplo crime sexual, repleto de ressonâncias místicas e desvarios. Hoffmann domina com tal maestria o curso da narrativa, que o mais apático leitor se surpreende irresistivelmente arrebatado pelo assombro.

 

Outro aspecto fascinante da obra de Hoffmann é a desenvoltura de sua diversidade temática. Em Die Serapionsbrüder (1819-1821; Os Irmãos de Serapião), cuja primeira novela se desenrola no plano da loucura de fundo religioso, a ficção histórica e os contos de humorismo ganham relevo considerável, sem prejuízo da qualidade estética. O livro contem verdadeiras obras-primas, como Rat Krespel (O Conselheiro Krespel) e Nussknacker und Maüsekönig (Quebra-nozes e o rei dos ratos), onde se salienta outro dos traços dominantes de E.T.A. Hoffmann: o profundo interesse pela ilusão que permeia toda verdade humana.

 

Uma moral de saboroso hedonismo se depreende de Prinzessin Brambilla (1821; A Princesa Brambilla): na relação um tanto enigmática entre a intimidade dos personagens e o mundo febril de suas aventuras, há todo um convite à liberdade do amor e da alegria. Muito mais amarga é a substância de Lebensansichten des Katers Murr (1820-1822; Opiniões do gato Murr), em que transparece o tom confessional conflituosamente dividido entre a fala do genial e louco Kreisler e a fala vulgar, conformista e conformada, do gato Murr. Extraordinária, nesse romance, é a crítica dos limites materiais da imaginação no terreno restrito da linguagem.

 

Como crítico musical, Hoffmann foi o mais brilhante de seu tempo, o primeiro a reconhecer a grandeza do gênio de Beethoven. Ele próprio compositor de música sacra e de câmara, assim como de uma ópera de mérito, Undine (1816), foi no entanto sua produção literária que lhe deu permanência, influindo decisivamente nos rumos tanto da literatura como da música de todas as gerações que se lhe seguiram. Influenciou, na França, Gérard de Nerval, Musset, Baudelaire; na Inglaterra, Walter Scott; na Rússia, Gogol; e entra nos Estados Unidos através de Poe; é personagem de uma ópera de Offenbach, inspira o libreto do Tannhaüser, de Wagner, e do balé Coppelia, de Delibes; e influencia Busoni, Schumann, Berlioz, tal a fertilidade de sua síntese, auge de um romantismo impregnado dos germes da modernidade.

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional