ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

Oratório

Última modificação : Segunda, 28 Dezembro 2015 16:02


 

Etimologia. Do verbo lat. orare, "falar, dizer, pedir, rogar, suplicar", há o substantivo orator, -oris, "orador, o que pede, o que roga", e daí o adjetivo oratorius, -a, -um, "relativo àquele que roga, feito para pedir, destinado a suplicar", que se substantiva na forma neutra oratorium (templum), "lugar de pedido, de rogo, de súplica, oratório, pequena capela", origem do port. oratório, de 1457, esp. it. oratorio, do século XIII, fr. oratoire, do século XII, ing. oratory, do século XIV, al. Oratorium, do século XIV.

 

No século XVI são Felipe Néri (1515-1595), que fundou a Congregação do Oratório em 1558 (it. Congregazione dell´Oratorio), mandou compor peças musicais e as fazia executar na igreja do Oratório (it. Chiesa dell´Oratorio), em Roma. Essas peças e o futuro musical que elas vieram a construir tomaram o nome (it. oratorio) da igreja (it. Oratorio, do lat. oratorium) onde eram executadas.

 

Assim, a origem do port. oratório, esp. oratorio, ambos do século XVIII-XIX, fr. ing. oratorio, respectivamente de 1739 e de 1727-1739, al. Oratorium, do século XVII-XVIII, é o it. oratorio, do século XVI.

 

Conceituação. O oratório é uma obra coral, sobre tema bíblico. O respectivo texto das Escrituras, eventualmente ampliado, é declamado em recitativo por um narrador. A narração é interrompida por árias, duetos, coros, que exprimem musicalmente os estados de alma dos personagens e da comunidade dos ouvintes. Trata-se, portanto, de uma ópera sacra, que não é destinada à representação no palco, mas à maneira concertante, sem decorações cenográficas. Modernamente, a partir do fim do século XVIII, também se escreveram oratórios profanos, cujo tema não é bíblico, mas, de qualquer modo, elevado.

 

Origens. O primeiro compositor de oratórios foi o italiano Giacomo Carissimi (1605-1674). Como regente do coro do Collegium Germanicum, dos jesuítas, em Roma, tinha a obrigação de escrever a música para as representações teatrais, que eram um dos recursos eficientes da educação jesuíta; e chegou a compor os primeiros exemplos daquelas óperas sacras. Seria exagero chamar Carissimi de "Haëndel italiano". Mas foi ele indubitavelmente um músico de muita invenção melódica e de forte senso dramático. Dos seus 12 oratórios conservados, pelo menos um, Jephte (1650), ainda hoje é digno de ser ouvido.

 

Oratório italiano. Entre os sucessores de Carissimi destaca-se o nome de Alessandro Stradella (c.1645-1682), mais célebre por sua vida aventurosa do que pelas suas obras; contudo, San Giovanni Battista (1675) é de forte efeito dramático. Nesse tempo, o oratório já tinha saído das escolas jesuítas, ocupando papel importante na vida musical. Durante a Quaresma, quando as normas canônicas não permitiam as representações teatrais, as de ópera foram substituídas por oratórios, em cuja linguagem musical se introduziu, inevitavelmente, o estilo operístico.

 

Mas nem todos os oratórios dessa época são teatrais: em alguns sobrevive a austeridade da autêntica música sacra. Isso talvez não seja o caso dos oratórios de Alessandro Scarlatti (1659-1725), o grande criador da ópera napolitana; obras como Sedecia (1706) e La Vergine addolorata (1717) revelam notável progresso na expressividade das árias e no brilho do acompanhamento instrumental. E La Morte d´Abele (1712), de Leonardo Leo (1694-1744), é um dos mais belos oratórios do século XVIII. Até um operista profissional como Johann Adolf Hasse (1699-1783) criou, em La Conversione di sant´Agostino, uma obra séria.

 

Haëndel. O maior autor de oratórios também pertence a esse século: Georg Friedrich Haëndel (1685-1757). Suas obras-primas - Saul (1737), Israel in Egypt (1739), Samson (1742), Joshua (1747), Judas Maccabaeus (1747), Jephta (1751) - são grandiosos afrescos épicos; ao mesmo tempo, revelam muito maior força dramática que as óperas do mestre. Celebram os grandes momentos da história do povo de Israel, conforme o Velho Testamento; mas simbolizam - os textos são escritos em língua inglesa - os feitos das armas inglesas na terra e nos mares, constituindo uma espécie de invisível teatro histórico do império britânico. Só o maior oratório de Haëndel, The Messiah (1742), não pertence ao mesmo gênero; é um grandioso hino sobre o Advento.

 

A sucessão de Haëndel. Na segunda metade do século XVIII, a fama de Haëndel cresce em toda a Europa. Os compositores que visitam Londres são irresistivelmente atraídos para o gênero do Oratório, e um desses visitantes é o grande Joseph Haydn (1732-1809) que, de volta a Viena, escreveu Die Schöpfung (1798; A Criação), já não no estilo majestoso do modelo, mas de uma religiosidade menos velho-testamentária do que deísta. De Haydn é também o primeiro oratório profano, Die Jahreszeiten (1801; As Estações), sobre textos poéticos do pré-romântico James Thomson (1700-1748).

                                                                                      

O estilo haendeliano continuou sendo cultivado na Inglaterra, embora com reduzido sucesso. Só os dois oratórios encomendados por associações corais inglesas a Felix Mendelssohn (1809-1847) - Paulus (1835) e, sobretudo, Elias (1846) - têm nível relativamente alto. Diferente de todos os oratórios é L´Enfance du Christ (1854; A Infância de Cristo), de Hector Berlioz; só esse dominador de grandes massas corais e orquestrais conseguiu criar, nessa obra, um oratório de religiosidade íntima. Numerosas, mas geralmente infelizes, foram na primeira metade do século XIX as tentativas de criar oratórios profanos. Mesmo o melhor, Das Paradies und die Peri (1843; O Paraíso e a Peri), de Robert Schumann, sofre do sentimentalismo exagerado do texto.

 

O oratório lisztiano. Revivificar o gênero do oratório foi uma das grandes preocupações de Franz Liszt (1811-1886). Não teve muita sorte, nem com o aproveitamento de temas folclóricos húngaros, em Die heilige Elisabeth (1862; A Santa Elisabete), nem com o estilo arcaizante de Christus (1866). No entanto, o oratório lisztiano encontrou na segunda metade do século XIX, e mesmo depois, numerosos cultores. César Franck (1822-1890), depois de ter dramaticamente contrastado o mundo cristão e o mundo pagão em La Rédemption (1872; A Redenção), criou em Les Béatitudes (1880; As Bem-aventuranças) o talvez mais belo oratório do século. Digno de nota também é o Franciscus (1888), do belga Edgar Tinel. Mas o maior sucesso foi The Dream of Gerontius (1900; O Sonho de Gerâncio), do inglês Edward Elgar (1857-1934), que foi festejado como um novo Haëndel.

 

O oratório moderno. Na Inglaterra não cessaram as tentativas de modernizar o estilo de Haëndel, adaptando-o às novas técnicas e exigências. As duas obras mais notáveis, nesse sentido, são Belshazar´s Feast (1931; O Festim de Baltasar) de William Walton (1902- ), e A Child of our time (1941; Um Filho de nosso tempo), de Michael Tippet (1905- ). No continente europeu, o oratório já estava substituído pela sinfonia coral. Fora de qualquer  preocupação religiosa escreveu Igor Stravinski seu Oedipus rex (1927; Rei Édipo), com texto escrito em latim para acentuar a "alienação". No entanto, a possibilidade de um oratório religioso em nosso tempo foi provada por Arthur Honegger (1892-1955), cuja Jeanne au bücher (1935; Joana na fogueira), escrita para as casas de ópera, conquistou as salas de concerto.


 

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional