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Os mais famosos compositores da linha do tempo

Salmo

Última modificação : Terça, 07 Junho 2016 15:49


 

Etimologia. O eruditismo esp. it. salmo, do século XIII, fr. psaume, do século XII-XIII, ing. psalm, do século X, al. Psalm, do século XI, hol. sueco psalm, din. salme, os três do período de formação dessas línguas, é o lat. psalmus, "canto com acompanhamento de saltério, salmo", do gr. psalmós, "ato de esticar e soltar as cordas de um instrumento musical, ato de tocar um instrumento musical de cordas, ária executada em instrumento musical de cordas, acompanhada ou não de canto", em grego tardio, "salmo", derivado do verbo gr. psállein, "tocar instrumento musical de cordas, dedilhar".

 

O texto. O livro dos Salmos, do Velho Testamento, chama-se em hebraico Sepher Tehillim (Livro de louvores). Os tradutores gregos da Bíblia denominaram-no Psalterion, designação do instrumento de cordas que acompanhava a recitação dos poemas. O psalmós grego corresponde ao termo hebraico mizmôr, que qualifica a maioria dos Salmos do Antigo Testamento. Mas psalmós parece indicar uma melodia já existente e para a qual se escrevem versos, enquanto mizmôr significa um poema que pode ser acompanhado por qualquer instrumento de cordas ou de sopro.

 

O livro dos Salmos contém 150 poemas, de tamanhos diferentes, que serviram aos hebreus como cânticos litúrgicos; seu uso continua até hoje nas sinagogas judaicas. Depois, a recitação de salmos foi incluída na liturgia da Igreja. Poemas de grande força emocional, os salmos têm, através dos séculos, atraído os compositores e inspirado a produção de numerosas obras-primas.

 

Polifonia. Josquin Des Prés foi o criador do salmo musicado (Miserere, Domine Deus noster, Cantate canticum novum), e inspirou Giovanni Palestrina e Orlando Lassus, Felice Anerio, Gregorio Allegri, Lodovico Viadana e tantos outros compositores. Há, entre essas obras, muitas de primeira importância, como o Sicut servus, de Palestrina, ou o famoso Miserere, de Allegri. Foi, porém, no século XVI, ao tempo da Reforma religiosa, que os salmos ganharam maior relevância do ponto de vista litúrgico.

 

A Reforma. Martinho Lutero (1433-1546), ao criar o coral, para que todos os fiéis pudessem participar do ofício divino, parafraseou vários salmos, revestindo-os da estrutura musical corálica, entre eles o famoso Ein´Feste Burg ist unser Gott (Um Sólido castelo é nosso Deus), paráfrase do Salmo 46.

 

Calvino (1509-1564) colocou os salmos em evidência na Igreja reformada, declarando-os os únicos textos permitidos para o cântico sacro. Inicialmente, sem a vivência musical de Lutero, e, por isso, sem compreender de imediato a importância da música sacra como elemento de edificação espiritual, não a desejou nos cultos. Mas durante seu exílio em Strassburg (1538-1541) mudou de opinião, após ouvir os corais luteranos entoados por toda a congregação. Resolveu então incluir na ordem do culto o canto congregacional em uníssono e a cappella, com a condição de que os textos dos cânticos fossem exclusivamente os salmos traduzidos para o francês e metrificados. Desse trabalho já se vinha ocupando o poeta Clément Marot (1496-1544), cujos primeiros salmos eram ligados a melodias populares, sem qualquer preocupação religiosa. Colaborando com Calvino em Genebra, Marot traduziu e metrificou 49 salmos, os mandamentos e o cântico de Simeão.

 

O Saltério calvinista. Depois da morte de Marot, coube a Théodore de Bèze (1519-1605) continuar a tradução versificada dos 101 salmos restantes, completando em 1562 a coleção de 150, que, por iniciativa de Calvino, recebeu gradativamente melodias apropriadas e, através de edições sucessivas, transformou-se no famoso Saltério huguenote, com os 150 salmos musicados.

 

Para realizar seu intento, Calvino atraiu a Genebra alguns músicos famosos como Loys Bourgeois (c.1510-c.1561). Mas foi, sobretudo, Claude Goudimel, que trabalhou os 150 salmos a várias vozes e de três maneiras diferentes: harmonizou-os a quatro partes nota contra nota, apresentou-os em contraponto florido a quatro vozes, e no estilo do motete. Sucessivas edições, paulatinamente ampliadas à medida que se musicavam os salmos, foram impressas. A primeira é a de 1539, quando Calvino se encontrava em Strassburg como primeiro pastor da comunidade de refugiados franceses: Auculus pseaulmes et cantiques mys en chant continham 19 salmos, dos quais seis eram traduzidos pelo próprio Calvino, e 13 por Marot, todos cantados com melodias populares. Essa coletânea teve edições aumentadas em 1542, 1545, 1549 e 1533, e serviu à comunidade reformada local até sua dissolução, em 1563.

 

Claude Goudimel. Após haver composto peças católicas (missas, motetes, Magnificat), consagrou-se a musicar salmos para o culto calvinista e evoluiu do estilo polifônico tradicional para um estilo homofônico bastante apurado e fiel ao gosto de Calvino. Sua música pode ser encontrada em quase todos os saltérios, de diferentes idiomas, publicados nos séculos XVII e XVIII.

 

Voltando a Genebra em 1541, Calvino publicou no ano seguinte a primeira coleção genebriana: La Forme des prières et chants ecclésiastiques (A Forma das preces e cantos eclesiásticos), que reunia a maior parte das peças contidas em Aulcuns pseaulmes (Alguns salmos), apresentava algumas melodias modificadas e acrescentava trinta salmos de Marot com novas solfas.

 

Enquanto se constituía o Saltério huguenote, a Igreja de Lausanne lançou uma coletânea de salmos para seu uso, que se completou em 1565. As coleções de Strassburg e de Lausanne só foram suplantadas pelo Saltério genebrino huguenote.

 

A origem das melodias dos salmos é variada, sendo difícil determinar com exatidão aquelas compostas por Loys Bourgeoiis ou por seu sucessor, o compositor genebrês Pierre Dagues. Adaptaram-se melodias tradicionais, melodias populares, melodias de origem alemã e melodias tomadas a trechos sacros.

 

O Saltério Anglo-genebriano, organizado pelo reformador John Knox (1505-1572) para uso de suas igrejas, adaptou quase todas as melodias do Saltério huguenote aos salmos em tradução e metrificação inglesas.

 

Entre 1542 a 1562, quase todos os compositores reformados apresentaram-nos como tema de obras polifônicas mais ou menos desenvolvidas. Assim fizeram Jannequin, Pierre Certon, Jacques Arcadelt, Philibert Jambe-de-Fer, Paschal de l´Estocart, Claude Le Jeune, Claude Goudimel e, sobretudo, Jan Pieterszoon Sweelinck. Pelos compositores católicos foram musicados, nos séculos XVII e XVIII, sobretudo o Miserere e o De profundis, cabendo o primeiro ao veneziano Giovanni Gabrielli (1577-1612), sendo especialmente famoso o Miserere de Gregorio Allegri (1638).

 

Salmos e hinos. Do ponto de vista da estrutura musical, não há diferença entre os salmos e, por outro lado, os hinos, cantos litúrgicos cujos textos não são tirados do Saltério. Os mais famosos desses hinos é o Stabat mater: as primeiras composições são de Josquin Des Près no século XV e de Palestrina no século XVI; desde o começo do século XVIII discutiu-se a preeminência dos Stabat de Pergolese (1736) ou de Astorga (1707), ao passo que o de Agostinho Steffani (1724) se distingue pela riqueza do acompanhamento orquestral. O famoso Stabat de Rossini (1832) é meio frívolo. Entre as composições modernas do texto destacam-se as de Dvorák (1833) e do polonês Szymanowski (1928).

 

Quanto ao Tedeum ou Te Deum, é retumbante o de Berlioz, mas a composição mais importante do texto é a de Anton Bruckner (1881). Enfim, entre as numerosas musicações do Magnificat, é a de Johann Sebastian Bach (1723) de longe a mais bela.

 

 

 

Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional