ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

TUPYNAMBÁ, MARCELLO (1889-1953)

Última modificação : Sexta, 18 Setembro 2015 16:22



Marcello Tupynamba por Ralfe Braga

 

lustração de Ralfe Braga encomendada por Alexandre Dias

 

Marcello Tupynambá (na grafia moderna Marcelo Tupinambá), era o pseudônimo de Fernando Álvares Lobo (Tietê, 29 de maio de 1889 - São Paulo, 4 de Julho de 1953), filho de músicos portugueses de sobrenome Lobo. Seu tio, Elias Álvares Lobo, foi autor da primeira ópera escrita em português no Brasil e seu pai, Eduardo Lobo, foi destacado no cenário musical de sua época para reger a orquestra que recepcionou D. Pedro II no interior paulista.

 

Também foi engenheiro formado pela Politécnica da USP, radialista, crítico musical e poeta. Teve ativa participação durante a Semana de Arte Moderna; foi amigo e colaborador das rodas literárias e artísticas onde conviveu com Villa-Lobos, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, entre outros.

 

Foi ao lado de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, fundamental na edificação de um estilo de composição que se tornaria paradigma na identificação de uma música verdadeiramente nacional.

 

Sua obra compreende mais de trezentas canções para canto e piano ou piano solo, incluindo outros gêneros como operetas, bailados, corais e quartetos de corda.

 

A música de Tupynambá exerceu enorme influência no gosto popular entre as décadas de 1910 e 1930. Os foliões, durante o período de carnaval, saiam às ruas entoando as melodias do autor, que eram, ainda, difundidas através dos teatros, cinemas, discos e mais tarde também através do rádio e TV, resultando num enorme índice de popularidade e aceitação. Famosas, as músicas de Tupynambá logo foram impressas e consumidas em forma de partitura.

 

As músicas de Tupynambá já receberam mais de 200 gravações desde 1913 até hoje por intérpretes como Pixinguinha, Francisco Alves, Inezita Barroso, Eudóxia de Barros, Guiomar Novaes, e foram reverenciadas por Villa-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e Darius Milhaud.

 

Porém grande parte das músicas de Marcello Tupynambá permanece desconhecida do público em geral também porque cantores e músicos não têm fácil acesso a suas partituras.

 

O descaso perante a obra de Tupynambá, que parece ser histórico, foi relatado primeiramente por Mário de Andrade, em artigo da década de 1920 para a revista cultural Ariel e em seu famoso livro Uma Pequena História da Música. O autor de Macunaíma queixava-se, já naquele tempo, dos músicos que abandonavam as partituras de Marcello Tupynambá como se fossem moda passageira. O pensador, que liderou uma geração de compositores comprometidos com o desenvolvimento de uma verdadeira música nacional, de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Luciano Gallet e tantos outros, se referia à música de Tupynambá como um dos mais sólidos pilares da cultura brasileira. Dizia ser “escritas como entre o povo se faz arte”. E chegou a analisar: “O que exalta a música de Marcello Tupynambá é a linha melódica. Muito pura e variada. O compositor encerra nela a indecisão heterogênea de nossa formação racial...é atualmente, entre os nossos melodistas de nome conhecido, o mais original e perfeito.” (1924).

 

Em outro trecho conclusivo do artigo da Ariel, Mário de Andrade afirma, quase que profeticamente: “Não se ouve mais o Matuto, ninguém mais se lembra de Ao Som da Viola. Mas é possível que um dia os compositores nacionais, conscientes da sua nacionalidade e destino, queiram surpreender a melodia mais bela e original de seu próprio povo. As músicas de Marcello Tupynambá serão nesse dia observadas com admiração e amadas com mais constância. Elas o merecem e o artista que as compôs, será lembrado, como um dos que melhor e primeiramente souberam surpreender os balbucios da consciência nacional nascente.” (1924).  Foi, ainda Mário de Andrade, parceiro responsável pelos versos de Canção Marinha, música de Tupynambá, gravada em disco pela cantora Inezita Barroso.

 

O compositor francês Darius Milhaud, pertencente ao Grupo dos Seis (Les Six) em Paris, de passagem pelo Brasil no final da década de 1910, também descreve a falta de atenção dos músicos brasileiros aos temas de Tupynambá. Milhaud classificou Tupynambá como “uma das glórias e joias da arte brasileira”, e afirmou que suas melodias seriam como estrelas–guia da nossa riqueza musical, ignorada, desperdiçada, sem maiores explicações. (“Tupynambá e Nazareth precedem a música de seu país como aquelas duas grandes estrelas do céu sulino (Centauro e Alfa Centauri) precedem os cinco diamantes do Cruzeiro do Sul” (Milhaud, in La Revue Musicale, 1920). Fez o que aconselhava a todo músico brasileiro: estudou-as e tratou ele mesmo de citar sete melodias de Tupynambá em uma das suas músicas mais interpretadas até os dias atuais, o balé Le Boeuf sur le Toit.

 

Villa-Lobos, em 28 de abril de 1923, concedeu um retrato autografado a Marcello Tupynambá, que juntamente com o retrato assinado do maestro Eleazar de Carvalho e Souza Lima, tinham lugares reservados em cima do piano do compositor. Numa outra ocasião, Villa-Lobos, considerado nosso maior compositor, afirmou ter composto uma sinfonia sob inspiração dos temas de Tupynambá, e assim escreveu na dedicatória: “Foi de um tema, de uma parte de tua alma sonora, filha dos trópicos de nosso Brasil, que criei esta sinfonia sertaneja.”

 

As partituras da coleção Marcello Tupynambá, em sua maioria, são para canto e piano, piano solo, coro, banda e orquestra. Uma obra extensa, composta por mais de trezentas partituras para canto e piano (canções) e piano solo, uma dezena de peças para coro e orquestra (operetas), outra dezena de músicas para orquestra sinfônica (bailados e trilha sonora) e ainda algumas composições para instrumento solo e piano (lendas para violino e piano) e outras para coro (motivos folclóricos e música sacra). Toda essa diversidade de composições incluía colaboradores, letristas, parceiros e arranjadores.

 

Os versos das canções de Tupynambá são dos poetas Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Afonso Schmidt, Amadeu Amaral, Manuel Bandeira, Castello Netto, Olegário Mariano, Homero Prates, Alphonsus de Guimaraens, entre outra dezena de escritores, alguns representantes da Semana de Arte Moderna de 1922.

 

Participaram de arranjos de músicas suas os maestros Guerra-Peixe, Pixinguinha, Gabriel Migliori, Souza Lima e Gaó. Interpretaram suas canções Francisco Alves, Vicente Celestino, Silvio Caldas, Inezita Barroso e Zizi Possi. Gravaram suas músicas Pixinguinha e Oito Batutas, Altamiro Carrilho, Eudóxia de Barros e Mário de Azevedo.

 

Escreveram criticamente sobre sua obra Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Vasco Mariz, Ary Vasconcelos, Mariza Lira, Edigar de Alencar, José G. Vinci de Moraes, Manoel Aranha Correa do Lago, Renato Almeida, Bruno Kiefer, Aloysio Alencar Pinto, Darius Milhaud, Oneyda Alvarenga, Benedito Pires de Almeida, Menotti Del Picchia, José Miguel Wisnik, Zuza Homem de Mello, José Ramos Tinhorão, Homero Prates, Manuel Bandeira, Elizabeth Travassos, Ulisses Paranhos, Cravo Albin, Jairo Severiano, Duprat Fiúza, Beatriz Leal Guimarães, Sérgio Millet e Ailton Rodrigues.

 

O teatro musicado pode ser considerado o primeiro divulgador da música de Marcello Tupynambá; tão logo suas canções faziam sucesso nos espetáculos, as canções passavam a ser editadas no formato de partitura e gravadas em disco. A partir de 1924, também o rádio se tornaria outro importante instrumento de divulgação de sua obra. Tupynambá foi pioneiro na função de diretor artístico das rádios Educadora, Bandeirantes, Record, Tupi e Gazeta em São Paulo. Para o cinema, escreveu trilhas sonoras e seu oficio no dia a dia, assim como o de Ernesto Nazareth, era acompanhar as fitas de cinema mudo.

 

Marcello Tupynambá atuou desde sempre para o reconhecimento e valorização da arte popular brasileira. Ele preocupava-se com a música regional, por exemplo: as modas e toadas do interior, com melodias simples e letras inspiradas em assuntos do cotidiano, eram recriadas em versão para voz e piano.

 

Atuando em diversos campos artísticos, o compositor deve ser considerado um legítimo representante da consolidação da canção brasileira como música nacional por excelência.

 

 

CATÁLOGO DE OBRAS


 

 

Fonte original do artigo e da imagem:

Marcello Tupynambá - pai da canção brasileira

Site dedicado ao compositor brasileiro Marcello Tupynambá (Marcelo Tupinambá)